terça-feira, 22 de maio de 2012

Indústria corre atrás de soja


22/05 
Após quebra climática, Brasil acelerou exportações e deixou as processadoras com matéria-prima limitada. Saída é procurar grãos na vizinhança

Cassiano Ribeiro

Depois de ampliar em um terço só as exportações de soja em grão no primeiro quadrimestre deste ano – ao todo, foram embarcadas 3,4 milhões de toneladas a mais de grão, óleo e farelo, na comparação com 2011 –, o Brasil reduziu drasticamente seus estoques. Agora, o segundo maior fornecedor mundial da commodity prepara-se para aumentar as importações do produto na entressafra, prevista para a partir de agosto.

Paraná e Rio Grande do Sul, que sofreram quebra com a seca, precisarão buscar cerca de 500 mil toneladas de soja a mais do que o normal, conforme os especialistas. O volume deve ser suprido pelos estados do Centro-Oeste e principalmente pelo Paraguai, país com vocação exportadora, mas que também foi severamente prejudicado pela seca durante o verão.

Neste momento, a indústria tem procurado se ajustar às perspectivas de aperto nos estoques de soja, reduzindo ou escalonando o esmagamento do grão. Mesmo assim, prevê que precisará de reforço para manter as máquinas em atividade.

“Existe o risco de faltar [soja] a partir de setembro. Por isso, estamos nos organizando para, se necessário, buscar em Mato Grosso”, afirma Luiz Lourenço, presidente da Cocamar, de Maringá. A cooperativa opera com 100% da capacidade de esmagamento e mantém a meta de processar 1 milhão de toneladas de soja neste ano.

Por outro lado, a Associa­ção Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove) calcula que 38% da capacidade de processamento da indústria brasileira ficará ociosa até dezembro, contra 34% em 2011. A entidade considera que o esmagamento vai cair de 36,8 milhões de toneladas para 34,8 milhões de toneladas.

Principal fornecedor de soja para o Sul do país, Ma­­­to Grosso está com cerca de 90% da sua colheita comercializada. Da lista dos fornecedores, portanto, restaria Mato Grosso do Sul, também castigado pelo clima, e Goiás, conclui Aedson Pereira, analista de mercado da consultoria paulista Informa Economics FNP. Além dos dois estados, o Paraguai tende a ser a principal via de entrada de soja, caso o país recorra ao comércio exterior. O país vizinho é responsável por enviar entre 70% e 80% do volume de soja importado pelo Paraná em anos normais, levantamento da Informa.

“O Paraná costuma trazer entre 600 mil e 700 mil toneladas de estados do Centro-Oeste e principalmente do Paraguai. Neste ano, esse volume pode chegar a 1 milhão de toneladas, de acordo com as tradings”, revela Pereira. O Rio Grande do Sul já começou a buscar soja em fontes alternativas e pode precisar de até 500 mil toneladas para suprir o seu consumo industrial, 200 mil a mais do que em anos de boa safra.

“Algumas usinas de biodiesel do Rio Grande do Sul estão procurando outras matrizes para transformação, como a canola. Não consigo imaginar a engenharia necessária para se trazer soja do Mato Grosso ou do Paraná”, afirma Carlos Cogo, analista e sócio da Cogo consultoria, de Porto Alegre.

Cogo inclui a Argentina na relação de possíveis fornecedores de soja para o Brasil, mas somente num caso extremo. “Eles [argentinos] têm tarifa para exportação e uma indústria de biodiesel maior que a brasileira, além de também terem enfrentado quebra”, acrescenta.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) calcula que a importação de soja em grão do Brasil será de apenas 50 mil toneladas neste ciclo, 9 mil toneladas acima de 2010/11. Para o farelo de soja, produto utilizado na cadeia de carnes como nutrição animal, a Conab projeta importação de 35 mil toneladas, contra 24,8 adquiridas do mercado internacional no ano passado.

Cotações podem definir tamanho da compra

As cotações da soja no mercado internacional devem ditar o tamanho da importação do Brasil. Se os preços da oleaginosa caírem na Bolsa de Chicago, as compras podem ser favorecidas, admite a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove). Em Paranaguá, a oleaginosa atingiu recorde histórico de R$ 65 por saca de 60 quilos na última semana.

De olho no mercado, a Abiove não acredita que haverá uma escassez aguda no Brasil ou risco de desabastecimento. “O preço mais baixo pode viabilizar a importação, mas a China está muito firme do lado da demanda”, aponta Fábio Trigueirinho, secretário executivo da associação. Ele lembra, porém, que se a safra norte-americana for bem plantada, o que vem se confirmando a cada semana, as cotações da soja podem recuar.

Além de trabalhar com perspectivas de retração das cotações no segundo semestre, quando a colheita norte-americana ganha a atenção dos traders, o mercado cogita aumento na área plantada com a cultura no cinturão de produção norte-americano, o que na teoria ampliaria a oferta do produto e causaria desvalorização do grão. A expansão da oleaginosa pode ocorrer sobre a área de trigo de inverno, que deve ser colhido antes do normal, afirma Aedson Pereira, da Informa Economics FNP. Apesar de as cotações do grão terem recuado ligeiramente em alguns dias da semana passada, na Bolsa de Chicago, os negócios mantiveram-se aquecidos no Brasil.

“Os compradores [indústrias] estão correndo para ter oferta mais confortável e margem para trabalhar lá na frente. Enquanto isso, o produtor tem aproveitado para vender tanto a safra velha como a nova”, explica Pereira.

Diante da escassez de oferta de soja e da necessidade da indústria, os preços internos tendem a se descolar das cotações da Bolsa de Chicago na segunda metade do ano, avalia o analista Carlos Cogo. “Vai ser uma disputa acirrada por grão e óleo principalmente. Farelo não deve faltar.”

Colaborou Carlos Guimarães Filho.

Gazeta do Povo

Dilma deve definir veto do Código Florestal até quarta


22/05 
BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff deve fechar a posição do governo sobre a sanção e veto no texto do Código Florestal até quarta-feira, afirmou nesta segunda à Reuters o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, que criticou parte do projeto aprovado e deixou clara sua posição pelo veto de parte do texto.

"Há coisas que não podem permanecer no texto... Não há como tratar igual os desiguais", afirmou ele, referindo-se a parte que trata da recuperação de áreas de proteção para pequenos agricultores.

Vargas, que participou das reuniões que a presidente fez sobre o tema no sábado e domingo, afirmou que o texto aprovado pelo Senado -e que acabou modificado pela Câmara- era mais apropriado para atender lacunas e problemas dos pequenos agricultores.

O ministro participou de um evento sobre a juventude rural nessa segunda, ao lado do ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência.

Carvalho pediu aos jovens presentes que apoiem o texto que a presidente sancionar, com os devidos vetos. Segundo ele, o tema vem sendo "meticulosamente estudado, artigo por artigo", e que "não haverá anistia para o grande desmatador".

Mais cedo, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, reiterou que haverá veto na análise que a presidente Dilma Rousseff fará do novo Código Florestal recentemente aprovado pelo Congresso Nacional.

Dilma tem prazo até sexta-feira para vetar integralmente ou parcialmente o texto.

(Reportagem de Ana Flor)

Reuters

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Baixo investimento pode travar crescimento do País


Leandro Modé

A crise internacional e as perspectivas cada vez mais incertas para a economia brasileira travaram os investimentos no País


A crise internacional e as perspectivas cada vez mais incertas para a economia brasileira travaram os investimentos no País. Indicadores conhecidos como antecedentes (conjunto que, somado, dá origem aos dados consolidados) e informações de bastidores de mercado indicam que tanto o setor público quanto o privado pisaram no freio. Essa situação cria um ciclo vicioso, no qual o baixo investimento diminui o crescimento e o baixo crescimento reduz o investimento.
Para se ter uma ideia, esse foi um dos temas debatidos na sexta-feira numa reunião do diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, com analistas de mercado em São Paulo. "Existe o temor de que o investimento baixo de hoje signifique oferta menor lá na frente. E oferta menor pode resultar em inflação mais alta", afirmou um dos participantes do encontro.
A economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria Integrada, pegou alguns dados, fez as contas e chegou a conclusões preocupantes. Ela notou que, apesar do crescimento anêmico da indústria no primeiro trimestre, o nível de utilização da capacidade instalada (conhecido pela sigla Nuci) subiu. Entre janeiro e março, a produção industrial caiu 0,5% e o Nuci avançou 0,6%. "Se a indústria está fraca, o uso da capacidade instalada deveria cair também."
Outro indício diz respeito ao consumo aparente de bens de capital - calculado com base na soma de produção local e importações, subtraída das exportações. No primeiro trimestre, houve queda de 4,5% ante período anterior. "Com base nesses números, nossa projeção é de que a taxa de investimentos tenha caído 3,1% no primeiro trimestre (em relação ao anterior)."
Os dados oficiais sobre o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) entre janeiro e março de 2012 só serão divulgados em 1.º de junho. Além do crescimento em si, há grande expectativa sobre os investimentos. No fim de março, a presidente Dilma Rousseff afirmou que a taxa de investimentos no Brasil deveria caminhar para 24% ou 25% do PIB. Em 2011, ficou em 19,5%.
O número da presidente não surgiu por acaso. Economistas avaliam que, para o País crescer de forma sustentável de 4% a 5% ao ano (meta de Dilma), precisaria levar a taxa de investimento ao nível citado pela presidente.
Conversas de bastidores também são desanimadoras. O Estado apurou que empresas dos setores siderúrgico, de papel e celulose e de bens de capital, entre outras, paralisaram recentemente planos de expansão e não cogitam retomá-los tão cedo.
Crise. São várias as razões para o pé atrás dos empresários. Algumas estruturais e largamente conhecidas, como a baixa produtividade dos gastos governamentais, a alta carga tributária e a infraestrutura precária. São fatores citados por Marcelo Moura, professor de economia do Insper, e por Paulo Bilyk, sócio da Rio Bravo Investimentos.
"O Brasil arrecada como país rico, mas tem serviços de país pobre", sintetiza Moura. "Por causa desses problemas estruturais, as empresas brasileiras não estão conseguindo entregar os lucros que prometeram alguns anos atrás", completa Bilyk. Para ele, o lado bom é que o "investidor estrangeiro finalmente será realista em relação ao Brasil".
Mas há, também, fatores conjunturais. Além da crise internacional, que por si só já coloca enorme ponto de interrogação sobre o cenário econômico, há temores das mudanças recentes do governo Dilma nas políticas cambial e monetária. Para piorar, o setor público está investindo menos do que se esperava.
"Conversamos com empresários de vários segmentos, que dizem que os investimentos do governo estão em ritmo lento, com exceção do programa Minha Casa, Minha Vida", comenta o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.
Até a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que cansou de se queixar do real valorizado e do juro alto, está pessimista. "As perspectivas para os investimentos são muito ruins", diz o diretor de Competitividade da entidade, José Ricardo Roriz Coelho.

O Estado de São Paulo - 21/05/2012

Integração Lavoura, Pecuária e Floresta revolucionando o agronegócio brasileiro


21/05/12 - 01:10 
Potencialidades do sistema foram apresentadas durante o Fórum ABAG-Cocamar
As vantagens e potencialidades do sistema de Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF) foram abordadas durante o XXIII Fórum ABAG-Cocamar, na última sexta-feira (18), em Maringá (PR). Fruto de uma parceria entre a Associação Brasileira do Agronegócio e a Cooperativa Agroindustrial, o evento contou com cerca de 500 participantes, entre lideranças, pesquisadores, produtores e convidados.

A ILPF apresenta-se como uma alternativa para recuperar as áreas degradadas e aumentar de forma significativa os índices de produtividade. Através da rotação entre as culturas, o sistema contempla todos os pilares do desenvolvimento sustentável, gerando benefícios econômicos, sociais e ambientais.

O presidente da Cocamar Cooperativa Agroindustrial, Luiz Lourenço, destacou o evento como uma ocasião especial, enfatizando a importância do sistema integrado e a necessidade de difundir a prática que ainda é desconhecida para uma grande parcela de produtores do país. A importância do Fórum como uma ferramenta para difundir e levar informação e conhecimento aos produtores foi ressaltada também pelo presidente da ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio), Luiz Carlos Corrêa de Carvalho, lembrando que a integração tem o poder de transformar economicamente uma região.

Segundo o pesquisador da Embrapa, João Kluthcouski, existe no Brasil dois milhões de hectares onde é realizada alguma forma de integração e mais 100 milhões de hectares de pastos ainda degradados. Apresentando um estudo de caso da Fazenda Santa Brígida, localizada em Ipameri (GO), ressaltou que a ILPF vai ser a maior das revoluções verdes no mundo todo. Com a introdução do sistema, a propriedade passou a produzir o ano todo e é considerada uma referência em manejo sustentável no país. “Tenho alta produtividade no grão e na carne. É um sistema perfeito!”, confirma a proprietária, Marize Porto Costa.

De acordo com pesquisas do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), a integração é realizada no estado há quase 20 anos. Conforme o pesquisador Sérgio José Alves, há pelo menos 300 mil hectares onde essa técnica já é desenvolvida. “Mesmo em ano de clima ruim se ganha dinheiro com o sistema integrado. A média de produtividade de soja, nos últimos anos, tem sido de 46 sacas por hectare, com aumento do número de unidades animal (UA) de 1 para 2,5 no verão e 8 no inverno”, diz Alves. A principal estação de experimentos do Iapar fica em Xambrê, na região de Umuarama.

O produtor Antonio Cesar Pacheco Formighieri, proprietário da fazenda Santa Felicidade, em Maria Helena, partilhou sua experiência com o trabalho de recuperação das pastagens através do sistema de integração. Citando paradigmas apontados por muitos como empecilhos para a produção agrícola na região Noroeste do Paraná, ele diz que o arenito, ao contrario, tem um grande potencial. “Solo recuperado é garantia de sucesso, tanto na agricultura quanto na pecuária. A ILPF em minha opinião é a forma mais inteligente, sustentável e eficiente de recuperar os solos degradados do arenito”, assegura.

Pioneiro do Plantio Direto na América de Sul e presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, Herbert Bartz, de Rolândia, também marcou presença no evento e falou sobre o desenvolvimento da prática que abrange hoje 25 milhões de hectares, consolidando o Brasil como uma referência mundial no sistema. “Como eu fui um dos iniciadores, eu me sinto privilegiado e plenamente realizado pelo simples fato que, essa realidade que nós vivemos hoje, ultrapassa em mil por cento minhas mais audaciosas esperanças”, disse.

Fechando o evento, o vice-presidente de agronegócios do Banco do Brasil, Osmar Dias, falou sobre o crescimento mundial da população e a demanda por alimento nos próximos anos, destacando a oportunidade de negócio para os produtores brasileiros. Frisou sobre o programa de financiamento para Agricultura de Baixo Carbono (Programa ABC) do governo federal, disponibilizado a juros de 6,75% ao ano, com oito a doze anos para quitação. Na ocasião, Dias também sinalizou que as taxas de juros do Plano Safra 2012/13, que deverá ser anunciado no dia 1º de julho, poderão ser reduzidas. “A proposta já existe e precisa de aprovação do Conselho Monetário Nacional (CMN) para vigorar no próximo Plano Safra", disse.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O agronegócio brasileiro


O perfil do desenvolvimento econômico e social do Brasil tem se modificado nos últimos anos

Neri Dos Santos
O perfil do desenvolvimento econômico e social do Brasil tem se modificado nos últimos anos. O entendimento das relações entre crescimento industrial e desenvolvimento econômico e social vem se alterando de forma significativa nas últimas décadas. Até os anos 1970, desenvolvimento econômico era sinônimo da implantação de setores industriais tradicionais, como o siderúrgico e o automobilístico. Em contrapartida, o agronegócio era tido como atividade econômica típica de países em estágios iniciais do processo de desenvolvimento.
Os imperativos ambientais e de combate à desigualdade social estão modificando essa percepção. Importantes eventos ocorridos nos últimos anos - como o esgotamento da fronteira agrícola em diversas regiões do mundo, a concentração crescente da população mundial no meio urbano, as preocupações de natureza ambiental, a busca por fontes alternativas de energia e, sobretudo, o aumento da capacidade competitiva do Brasil neste setor - colocaram as atividades do agronegócio em posição estratégica na definição dos rumos da economia brasileira e nos sucessivos superávits na balança comercial de seu comércio internacional. 
De acordo com levantamento realizado pela Organização para Cooperação de Desenvolvimento Econômico (Ocde), o cenário sobre a produção de alimentos projeta a necessidade de crescimento em 20% até 2020 para atender à crescente demanda mundial. Nesse contexto, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) prevê que a União Europeia contribua com um aumento de 4% em sua produtividade, a Austrália com 7%, os EUA e Canadá com 15%, a Rússia e China com 26% e o Brasil com 40%. 
Em linhas gerais, pode-se afirmar que haverá um crescimento significativo do comércio internacional de alimentos e de matérias-primas de origem agrícola nos próximos anos. Para o planejamento de políticas governamentais do setor, é necessário responder a duas questões decisivas sobre o cenário para o agronegócio brasileiro: O desempenho dos últimos dez anos se manterá nas próximas décadas? Quais são as oportunidades e os desafios para o segmento no contexto mundial? Considerando-se os principais países produtores de alimentos e matérias-primas agrícolas, o Brasil foi aquele em que foram observados os maiores ganhos de produtividade no setor agropecuário entre 1960 e 2011. Nesse período, a produtividade elevou-se a uma taxa de mais de 2% ao ano, marca superior à verificada em países como a China (1,8%), a Índia e a Argentina (1,5%), os Estados Unidos e o Canadá (0,8%). 
Em anos recentes, especialmente a partir da década de 1990, esses ganhos de produtividade se expressaram na busca deliberada de inserção exportadora - como é o caso da celulose e da carne bovina -, no aumento da importância das atividades de processamento de alimentos e no esforço de inovação, tecnologia e gestão. 
Os ganhos de produtividade em todas as cadeias de produção do agronegócio brasileiro continuarão a sustentar a conquista de novas fatias de mercado, tanto de produtos processados quanto de matérias-primas de origem agrícola. Assim, a sustentação da competitividade no setor repousa, primordialmente, na capacidade de responder aos desafios do mercado internacional, o que exige esforços de inteligência, de inovação e obtenção de diferenciais tecnológicos. O crescimento da produção e do consumo de produtos de base agrícola nas próximas décadas será condicionado por uma dinâmica relacionada à elevação da eficiência nas atividades de produção e à manutenção do dinamismo nas atividades de processamento dos produtos agropecuários. 
Para que o agronegócio brasileiro seja capaz de se posicionar nesse processo de forma sustentável, é indispensável que esteja engajado na busca contínua de competitividade, o que implica um esforço inovador ainda maior tanto na agroindústria quanto em outras atividades de sua cadeia. 
A gestão do conhecimento, a inteligência competitiva e a inovação tecnológica são os principais alicerces da competitividade sustentável em todos os ramos de atividade empresarial, e o desempenho recente do agronegócio brasileiro comprova essa afirmação. Se se atentar para os alimentos, muitos exemplos poderiam ser traduzidos em abordagem semelhante. As atividades de P, D & I da Embrapa promoveram um aumento de produtividade na cultura de milho por hectare, nos últimos 30 anos, de cerca de cinco vezes - 80% de uma espiga de milho hoje é conhecimento. 
Os segmentos empresariais mais bem-sucedidos e mais promissores da produção nacional são aqueles que interagem melhor com o ambiente competitivo internacional, com a busca de um padrão tecnológico de ponta, seja em relação a produtos, a processos produtivos ou a técnicas de gestão, como é o caso do agronegócio brasileiro. Todavia, cabe ao governo fazer a sua parte, reestruturando a Política Agrícola nacional de maneira a reduzir a volatilidade da renda dos produtores rurais e a permitir uma mobilidade positiva e progressiva dos mesmos, em especial das classes C e D/E para classes superiores. 

Neri Dos Santos é doutor em Engenharia pelo Conservatoire National des Arts et Métiers de Paris, professor titular da UFSC e consultor técnico da Knowtec

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Uma Embrapa pública voltada para os interesses públicos


17 de maio de 2012
Por Vicente Almeida*


É inegável a mobilização social quando se trata de discutir os rumos estratégicos de umas das maiores empresas de pesquisa e desenvolvimento agropecuário do mundo, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Em pouco mais de 60 dias, vários editoriais e artigos de autoridades e articulistas políticos de grandes jornais no país se manifestaram sobre o tema. A abertura de seu capital para a iniciativa privada, transformando-a em Embrapa S/A, tem sido o mote para animar esse debate a esmo.

De uma maneira geral, as opiniões se dividem entre os que defendem uma Embrapa mais incorporada à lógica de mercado capitalista, de inspiração mais atrelada aos princípios neoliberais, e aqueles que apregoam uma Embrapa totalmente pública. É preciso, porém, ir além das aparências expressas nos discursos hegemônicos desses dois grupos.

Os primeiros reafirmam que a produção de conhecimento e tecnologia deve estar voltada à produção de mercadorias e que o Estado deve se abrir cada vez a esse setor, possibilitando aos interesses privados uma ingerência mais efetiva nos rumos da Embrapa. Para isso, sua estrutura e “cultura” organizativa devem se adequar aos valores apregoados e praticados nas relações de trabalho da iniciativa privada. O alimento e todo o conhecimento dali gerados serão mediados pelo interesse particular, agora no seu DNA jurídico-administrativo.

Ao defender uma Embrapa 100% pública, o segundo grupo apresenta uma aparente contradição a essa ideia. No entanto, logo nas primeiras linhas de sua argumentação, com raras exceções, querem dizer, na verdade, que a Embrapa tem de ter dinheiro 100% público voltado a interesses 100% privados.

É neste ponto que as elites econômicas e setores do governo se encontram em relação aos rumos da Embrapa: uma empresa pública para atender o privado. Até aqui, nenhuma novidade histórica, pois sabe-se publicamente que o Estado militar golpista de 1964 tinha muito pouco de nacionalismo, mas tudo de autoritarismo e entreguismo aos interesses norte americanos.

Contraditoriamente, é justamente nesse item que os trabalhadores e a sociedade se diferenciam. Entender a importância da Embrapa como uma empresa estratégica para a soberania alimentar e tecnológica do país e como ferramenta imprescindível à formulação e implantação de um novo ciclo de desenvolvimento agrário e agrícola no país é o grande “x” da questão.

Uma grande questão paira no ar: quem o governo está ouvindo sobre os rumos da Embrapa? Que voz(es) o governo vai considerar? Entristece os trabalhadores da Embrapa que o Sr. Ministro da Agricultura Mendes Ribeiro Filho se ausente desse debate com a sociedade e, principalmente, com os trabalhadores da empresa que há quase 40 anos a sustentamos com suor e dedicação.

A pergunta que deve ser feita é: o que a sociedade brasileira deseja da Embrapa para consolidar um projeto de país soberano, justo e sadio do ponto de vista alimentar e tecnológico? Respondido isso, cabe ao governo e ao Estado brasileiro fazer as políticas públicas fluirem e determinar à Embrapa o cumprimento das metas ali estabelecidas.

(*) Pesquisador da Embrapa e presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (SINPAF)

Disponível em: http://www.mst.org.br/Uma-Emprada-publica-voltada-aos-interesses-publicos

Formigas cultivadoras: espécies com sistemas de cultivo de fungos com técnicas mais eficientes que as utilizadas pelo homem

Várias espécies de formigas da América tropical vivem cada uma delas em associação com uma espécie particular de cogumelo doméstico. Essas formigas organizam o meio construindo ninhos, galerias e criadouros de cogumelos. Entre certas espécies, as galerias alcançam vários metros de profundidade e deságuam em salas de piso plano, teto em cúpula, às vezes com um metro de comprimento por 30 cm de largura, onde são instaladas as hortas de cogumelos. No coração dessa organização, o ninho central, imenso, está algumas vezes ligado a várias dezenas de ninhos satélites, menores, situados num raio de 200 metros. Essas formigas constroem também uma infraestrutura de transporte, uma malha irradiante de caminhos em terra batida, com dezenas de metros de comprimento, largura de um a dois cm e de via dupla: uma coluna de formigas parte para a coleta, enquanto uma outra volta para o ninho com seu carregamento.Para multiplicar os cogumelos dos quais se nutrem, essas formigas praticam metodicamente toda uma série de operações de cultivo. Elas preparam um leito de cultura coletando no exterior restos orgânicos de diversas fontes (fragmento de folhas, de madeira, de raízes ou de tubérculos) que elas laceram, trituram e moldam em blocos. Elas plantam nessas medas fragmentos dos cogumelos que começam a se desenvolver. Enfim, elas podam regularmente os filamentos micelianos, o que impede a frutificação do cogumelo e provoca a formação de intumescências, nódulos, das quais se nutrem exclusivamente. A divisão social do trabalho é rigorosa. Os indivíduos maiores vigiam as entradas do ninho e raramente se afastam dali.Indivíduos de porte médio partem ao exterior coletar os resíduos vegetais que eles fragmentam e amassam dando a forma de pequenas bolotas. Quanto aos indivíduos menores, eles cuidam das hortas de cogumelos, nutrem as larvas jovens e só saem do ninho no fim de sua vida. Mas essa divisão do trabalho aparentemente bem-regida não impede em nenhuma hipótese que certos indivíduos sejam dispersos, ou mesmo, consumidos.Em contrapartida, com todas estas operações de artificialização do meio e dos cuidados oferecidos aos cogumelos para facilitar a multiplicação, as formigas obtêm uma alimentação abundante, que pode suprir as necessidades de várias centenas de milhares de indivíduos.


Referência:MAZOYER, M.; ROUDART, L. História das agriculturas no mundo: do neolítico à crise contemporânea (Histoire des Agricultures du monde: du néolithique à la crise contemporaine) [tradução de Cláudia F. Falluh Balduino Ferreira]. – São Paulo: Editora UNESP; Brasília, DF: NEAD, 2010. 568p.: il.