quarta-feira, 29 de maio de 2013

Faltam mãos para ajudar na horta

Em época de aumento no consumo de alimentos, região de Curitiba tem cada vez menos trabalhadores para garantir verduras e legumes





Os legumes e verduras consumidos em Curitiba estão custando até 14 horas de trabalho por dia nas propriedades rurais que cercam a capital. A expansão das vagas nos setores de serviços, comércio e indústria reduz a população que trabalha diretamente com a terra. E quem persiste na atividade não está necessariamente sendo recompensado pela sobrecarga de trabalho, mostram os dados dos órgãos que acompanham a produção de alimentos na região metropolitana.



O esvaziamento das propriedades rurais, numa época de demanda crescente por alimentos, é reconhecido por Emater, Deral, Ipardes, Smab – órgãos do governo do estado e da prefeitura de Curitiba que reúnem as estatísticas disponíveis.



A produção se manteve em 1,1 milhão de toneladas anuais nos últimos cinco anos, atendendo parte da demanda crescente da capital e região. A população rural até aumentou (veja infográfico), mas a avaliação dos especialistas é de que uma redução contínua da força de trabalho provocou queda da área cultivada, de 47 mil para 43 mil hectares no mesmo período.



“A produção de hortaliças exige mais mão de obra do que a agricultura de grãos. Uma pessoa normalmente dá conta de apenas um hectare”, aponta Iniberto Hammerschmidt, coordenador estadual de olerícolas da Emater. Essa avaliação considera apenas a atividade direta. O número geral de trabalhadores do setor, incluindo pequenas agroindústrias e feirantes, teria caído de 77 mil para cerca de 72 mil no mesmo período. Sem um monitoramento do problema, os especialistas não conseguem apontar quantas pessoas faltam na produção de alimentos na região de Curitiba.



Acostumada a levantar ao amanhecer e a trabalhar até as 21 horas, a produtora e feirante Elizabeth Borgo, da Chácara Morroalto, em Almirante Tamandaré, afirma que “uma jornada de trabalho inferior a 12 horas é impossível”. Quando não está mexendo com os canteiros, ela providencia encomendas, que entrega de casa em casa (às terças), e faz feira no Jardim Botânico (sábados). À noite, ela cozinha geleias e massas. Mesmo em seu dia de folga, o domingo, acaba resolvendo pendências e programando a semana.



Elizabeth é casada e tem três filhos. Das cinco pessoas da família, apenas ela dedica-se exclusivamente à olericultura. A renda bruta da propriedade soma cerca de R$ 5 mil por mês. A chácara tem uma vaga em aberto, mas não encontra trabalhador disponível. “Não pensamos apenas nos lucros”, disse a produtora. “A agricultura orgânica é uma filosofia de vida.”



Os produtores de orgânicos impedem que a oferta de olerícolas não caia na região. A produção passou de 17 mil para 26 mil toneladas de 2008/09 para cá. O volume colhido no cultivo convencional – com uso de fertilizantes industriais e defensivos químicos – caiu 2%.



Por trás dos números



Estatísticas sobre a produção de alimentos no entorno de Curitiba confirmam a redução de mão de obra, mas o quadro só se esclarece com o confronto das informações.



Unidades menores



O número de propriedades rurais até aumentou (veja infográfico), mas houve redução da área de cultivo. As propriedades rurais estariam sendo divididas entre filhos de produtores ou parcialmente arrendadas.



Rural urbanizado



O aumento da população classificada como rural não eleva o total de trabalhadores no campo, conforme os especialistas. Mesmo morando distante, essas pessoas assumem postos de trabalho no comércio, na indústria e na prestação de serviços.



Responsabilidade



O volume de alimentos produzido na região de Curitiba aumentou tanto por habitante quanto por trabalhador da zona rural. Para cada morador, retira-se mais de 4 mil quilos de alimentos das chácaras e sítios. Por trabalhador, esse volume passa de 15 mil quilos.



União familiar



Dificuldades do setor põem em jogo a tradição das colônias



A agricultura na região de Curitiba ainda tem fortes características da época colonial: pequenas propriedades geridas pelos próprios familiares. O cultivo de alimentos se concentrou em hortaliças, cuja renda determina a continuidade do negócio, que persiste em áreas estatisticamente já apontadas como zona urbana.



Para os Tessari, de Lamenha Pequena, bairro de Curitiba, tudo gira em torno da produção agropecuária desde o início do século 20. De origem italiana, moram na chácara e produzem alface, brócolis, beterraba, tomate, pepino. “Trabalhamos juntos desde sempre”, afirma Simone, mãe e avó da família.



A vocação para o trabalho e a união são atestados à cada véspera de feira. A preparação dos alimentos que serão vendidos mantém os oito adultos da família ocupados até 21 horas frequentemente. Eles participam de feiras livre às terças e sábados. No dia seguinte, não há folga. Quem não se transforma em comerciante, continua trabalhando com a terra. Quem vai determinar se a família continuará a produzir alimentos nas próximas décadas é o casal de filhos de MaurícioTessari, que atualmente assume o trabalho pesado na chácara e nas feiras.



Sob as rédeas do mercado, renda não depende de suor



Para garantir o escoamento rápido da produção perecível, o produtor de hortaliças precisa entregar o que colhe pelo preço de mercado. Mesmo quem assume a distribuição e faz feira livre, também segue parâmetros de cotações ditadas pelo varejo, reclamam os horticultores.



Nas negociações com os supermercados, as cotações são pré-determinadas, sem que seja levado em conta o custo da produção nem a possibilidade de aumento nos preços nas prateleiras. “É uma escravidão que não leva a nada”, desabafa a agricultora Elizabeth Borgo, da Chácara Morroalto.



Os alimentos que apodrecem nas gôndolas são descontados direta ou indiretamente dos produtores. Quando não há desconto padrão de 10%, os olericultores relatam que têm de recolher o volume que não foi vendido.



A alternativa encontrada por muitos são as feiras livres coordenadas pela Secretaria Municipal do Abastecimento (Smab). Ao todo, há mais de 60 feiras espalhadas pela capital. Nelas, os agricultores têm maior autonomia na determinação dos preços. Por outro lado, fixam os valores com base em pesquisas feitas em supermercados e outras feiras.



“Não pode colocar o preço muito alto ou muito diferente de outros produtores, senão não vende”, afirma Georgina Ferreira, técnica da Smab que coordena as feiras orgânicas de Curitiba.



Uma alternativa é a realização de mais feiras nos municípios do entorno de Curitiba. Essa ampliação é importante para evitar o êxodo da mão de obra da zona rural, avalia Cícero de Souza, coordenador de Feiras e Sacolões da Smab.



Vitor Santana e Josiliano Murbach

29/05/2013

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